Crise é sinal de falta de percepção!


Crise é sinal de falta de percepção
O pensamento começa com o sentimento
e se desenvolve a partir da necessidade
de adaptar nossos atos à realidade de nossa situação.
O que leva à sabedoria,
é a apreciação da relação do homem
com o universo do qual faz parte.
A essência da sabedoria,
como o insigne Sócrates assinalou,
É conhecer a si mesmo.
A pessoa que não se conhece
não pensará sobre si mesma
e nem pensará criativamente.
Alexander Lowen em Prazer, uma abordagem criativa da vida.
A grande maioria das pessoas que vem por conta própria em busca de um tratamento psicológico tem a certeza de que está passando por algum tipo de crise.
Mas que tipo der crise poderia ser esta?

Na história e na crescente formatação da consciência humana, podemos notar que o indivíduo permanece incessantemente entrando e saindo de espaços fechados, todos configurados em meio a diversas leis e sistemas. Se a pessoa não está dentro de um contexto familiar, está dentro de um contexto de trabalho ou em alguma outra situação sócio-cultural que o requisite num estado padronizado de manifestação que interage e modifica a sua biografia pessoal. É deste modo que podemos observar o movimento que gera o aprisionamento do nosso ser essencial em uma trama que, ao atar, cega.

O mais triste deste estado é que o cegar vale tanto para uma visão mais acurada sobre a realidade externa, como também para uma visão interior. A crise, portanto, acontece quando o indivíduo passa a se dar conta de que não se entende nos vários dos sentimentos e sensações aos quais é acometido. Sente uma ruptura no sentido da vida.

Muitos se queixam de terem dificuldades para dizer um ‘não’ ao mesmo tempo em que outros se observam extremamente impacientes e até violentos em determinadas situações. O que todos estão falando é que algo acontece dentro de si mesmo que resulta em algum tipo de manifestação não satisfatória e sem controle do próprio eu.
Outra queixa comum daqueles que se percebem em estados mais depressivos é a falta de ação, mas mesmo neste estado de aparente não ação, exacerba-se mais uma amostra de um tipo de manifestação também sem controle.
Notem que quando abordamos a palavra controle, não é referente ao controle que estamos acostumados a viver ou a ouvir por aí, estamos falando da presença do Eu lúcido em qualquer situação que estamos criando ou que podemos ir de encontro.

Sabemos que processos vivenciados dentro de uma psicoterapia auxiliam o individuo a entrar em contato com os aspectos que o estruturaram e que dentro deste processo, a pessoa tem a oportunidade de se observar e de se transformar.
Isto gera a possibilidade de um reconhecimento perceptivo a respeito de nós mesmos e dos possíveis motivos que nos levaram a distanciarmo-nos de quem realmente somos.
Acontece que, num processo gradativo, a nossa percepção pouco a pouco acaba sendo minada. Passamos a achar normal uma vida medíocre sem grandes entendimentos sobre nós mesmos. Achamos que é normal corrermos atrás de uma ganância desenfreada alimentada por uma competição atroz.

Pouco a pouco perdemos a referência de quem somos e o pior é que passamos a achar que a baixa qualidade de prazer que temos na vida é normal.
Não nos apropriamos de nós mesmos e como consequência deixamos de existir como consciências quânticas que somos, passando a funcionar num limiar muitíssimo baixo.
De repente, porém, este nosso Si Mesmo passa a desconfiar de que algo não vai bem ou que talvez poderia estar melhor. Este é o precioso momento onde o indivíduo tem a chance de se resgatar, de se ganhar de volta. Nesta hora percebemos que tudo poderia ser diferente do que está, começamos a entrar em contato com várias das nossas questões que são emergenciais para que nos atualizemos como existências completas. Percebemo-nos em crise.

O exagrama chinês de crise é composto de dois caracteres,
um representando o perigo e outro a oportunidade.

Notamos que falta a percepção do por que estamos funcionando de modo tão insatisfatório há tanto tempo…
É lógico que temos toda uma história por trás que construiu e que ainda constrói tanto os nossos pensamentos como a maneira de nos compreendermos como entidades dentro de toda esta trama. Isso inclui todas as nossas possibilidades de ação até o presente momento.Fazendo um recorte histórico, podemos observar algo sobre parte desta construção de nós mesmos que se passou entre a Primeira e Segunda Guerra Mundial, o que houve no antes e no depois, só para dar um pequeno exemplo evidenciando como foram se construindo as nossas pseudoverdades:
– Desde o final da Segunda guerra mundial a sociedade vem evoluindo em ordenação de serviços, em ordenações psico-lógicas. Ordenações absolutamente necessárias para a tentativa de organizar-se no caos instalado nesta época de pós-guerra.

Em nome de deter vários tipos de enfermidades, resultado de doenças contagiosas, advindas de constelações familiares atípicas dentro dos padrões atuais, o processo de higienização enunciado no início do século passado, pôde ter um desenvolvimento mais efetivo. Deste modo, a estrutura familiar como a concebemos nos dias de hoje , teve um maior respaldo para se configurar no mundo como uma verdade importante e absoluta a ser vivida.

Indivíduos buscando segurança em diversos níveis passaram a compactuar com os vários tipos de crença oriundos desta matriz, acreditando ser a estrutura familiar, como a conhecemos, a forma ideal para se viver. Então, em nome de se deter as doenças transmissíveis e também de cuidar do tipo de patrimônio instaurado com o capitalismo, as famílias passaram a funcionar de modo monogâmico.
Notem que nada temos contra as estruturações familiares monogâmicas, assim como nada temos contra as estruturas poligâmicas, etc. etc., apenas estamos como observadores destas organizações, ressaltando também o desenvolvimento do psiquismo e da crença humana de acordo com os diversos tipos de sistemas vigentes.

A formatação, o viver dentro de determinados conceitos, leva ilusoriamente o indivíduo a sentir que pode controlar tudo… o que, como sabemos, é um paradoxo. Não dá para se controlar nada enquanto formos frutos inconscientes de um controle.
Temos, no trabalho, determinados padrões de controle também, isso vale para a área da ciência e assim por diante.

Ao final das contas todos vivem como se fossem funcionários de uma grande indústria, onde o pensamento global de uma arrecadação cada vez maior gera pensamentos locais de arrecadações individuais, tudo na inconsciência, longe do que é de fato a essência do Ser. Em outras palavras, cada um pensa em si, mas está acorrentado a um pensamento maior.

O próprio pensamento não advém das necessidades básicas e pessoais, mas sim da construção gerada pelo ‘corpo maior’, que dá a ilusão de uma base que sempre será como que faltante, gerando uma perpétua busca frenética do ter. Mas isso tudo também é uma construção que não tem nada a ver com a realidade interna do indivíduo.

Somos os atores de nós mesmos, por isso é que necessitamos saber com clareza sobre o script no qual estamos atuando e sendo a cada instante; podendo assim desenvolver as nossas habilidades rumando para nos tornarmos os senhores criadores das nossas realidades, com maior consciência, deixando de sermos consciências automatizas, ou seja, sem a percepção lúcida de nós mesmo.
Fonte: João Bosco Guimarães

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