Jovens estão endividados e precisam de ajuda


Jovens estão endividados e precisam de ajuda
Os índices de endividamento no país são os mais altos dos últimos oito anos e bateram o pico de 8% em 2012. Os jovens não ficam de fora das estatísticas e, assim que ingressam no mercado de trabalho, começam a se complicar gastando mais do que ganham.
Na entrevista a seguir, a socióloga Claudia Sciré, autora do livro Consumo popular, fluxos globais: práticas, articulações e artefatos na interface entre a riqueza e a pobreza, fala sobre o endividamento precoce dos jovens e dá dicas para ficar bem longe das dívidas.
Muitas famílias calculam seus gastos contanto com a presença do crédito, isto é, de uma renda a mais que não possuem. Você também percebeu esse comportamento nos jovens? Qual é a conseqüência disso?
Muitos jovens quando começam a trabalhar fazem um cartão de crédito, aproveitando a exigência de empresas que pedem para abrir uma conta no banco. Existe uma dificuldade de lidar com o primeiro salário e o consumo e eles acabam se endividando. É muito comum em famílias que ganham pouco, entre R$2,5 mil e R$3 mil, e têm gastos que vão além dessa quantia mensal, que o cartão de crédito seja muito usado como um complemento da renda. Elas acabam alternando uma série de cartões de crédito que possuem e, no final do mês, os gastos acabam sendo superiores ao que ganham. Dessa forma, as pessoas acabam trabalhando quase que exclusivamente para pagar a fatura do cartão de crédito. Isso vale também para os jovens.
Muitas pessoas se endividam comprando itens como celulares, roupas, cosméticos… Por que isso acontece?
Existe uma questão da identidade que passa pelo consumo, principalmente ao consumo ligado à aparência – produtos de higiene, beleza, roupas, sapatos, tênis. Esses gastos são feitos de forma tão picadinha que não chamam a atenção. Quando somados, no entanto, eles fazem um estrago e deixam os jovens sem dinheiro algum no fim do mês.
Qual é o melhor caminho para evitar dívidas?
As pessoas precisam saber exatamente quais são os gastos mensais fixos e colocar no papel. É sempre bom não comprometer mais da metade da renda com os gastos fixos. Apesar da poupança não estar muito em moda, eu sempre recomendo guardar pelo menos 10% do salário todos os meses. O restante deve ser gerenciado – o ideal é anotar todos os gastos, principalmente aqueles com o cartão de crédito. Outra dica é planejar uma compra, pesquisando preços em diferentes lugares e analisando quantos meses serão comprometidos com esse gasto. O segredo é fazer contas, isto é, saber quanto você ganha e quanto você pode gastar.
Os jovens se preocupam em economizar dinheiro para o futuro, fazer uma poupança?
Não existe uma cultura de poupar dinheiro, seja para fazer faculdade, para comprar uma casa ou um bem mais caro no futuro. Os jovens acabam explorando tudo o que ganham no mesmo mês com a compra de “itens supérfluos”. O mercado de consumo está caminhando para um modelo que não exige das pessoas poupar para dar uma entrada em uma casa, por exemplo. O costume da poupança está se dissolvendo.
Isso porque as pessoas podem comprar quase tudo sem entrada ou em parcelas?
É isso. À vista, o desconto nunca será tão grande a ponto de influenciar os consumidores a juntar dinheiro. O pensamento da maioria é: “Por que eu vou ficar anos juntando dinheiro, se posso comprar um carro agora e ficar pagando por dois ou três anos?”.
Não existe preocupação em juntar uma quantia nem para comprar uma casa?
Alguns jovens pensam em juntar dinheiro para comprar um carro, mas não uma casa. Se formos avaliar os valores atuais do mercado imobiliário em São Paulo, por exemplo, percebemos que comprar uma casa é irrealizável e isso gera muita frustração. Vivemos um momento de intangibilidade da realização do sonho da casa própria.
Um dos motivos do endividamento dos jovens é a falta de educação financeira?
Com certeza. Muitas pessoas acabam se endividando ou se enrolando com os cartões por falta de conhecimento. Todos os mecanismos financeiros do mercado são concebidos de uma forma confusa para o consumidor. Ninguém entende direito por que paga uma porcentagem de juros e depois do prazo do cartão precisa pagar mais taxas e mais juros, pois nada está em linhas claras. Falta uma política pública que exija a regulação nacional para propor um esclarecimento maior dos mecanismos de funcionamento dos cartões de crédito. Essa iniciativa deve ser aliada a uma política de educação financeira, seja nas escolas ou na própria televisão.
Fonte: Ana Luiza Jimenez

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