7 das maiores brigas da história da ciência


NÃO SE ENGANE COM A CARA DE BONZINHO QUE GÊNIOS DA CIÊNCIA PARECEM TER. GRANDES CIENTISTAS TAMBÉM SÃO CAPAZES DE FAZER TRAMOIAS RECHEADAS COM MUITAS FOFOCAS E COMPETITIVIDADE. VEJA OS BASTIDORES DE ALGUMAS DAS DISPUTAS MAIS IMPORTANTES DA HISTÓRIA DA CIÊNCIA E DA TECNOLOGIA DESDE O SÉCULO 17 – DE ISAAC NEWTON A BILL GATES

Insultos, trapaças, intrigas e muita, muita confusão. Embora pouca gente desconfie, a trama secreta que se passa dentro dos laboratórios é capaz de botar no chinelo um enredo de novela mexicana. Em meio a tubos de ensaio e lousas abarrotadas de equações, pode haver um(a) verdadeiro(a) chiliquento(a) de jaleco. “O cientista é um brigão inveterado, um indivíduo que se abala por um nada”, afirma o historiador Michael White em Rivalidades Produtivas.

Vista de perto, a ciência pode ser quase tão competitiva, cheia de rixas e picuinhas quanto um concurso de beleza. “As pessoas geralmente imaginam que os cientistas têm um grau de santidade quase inalcançável”, já disse o físico vencedor do Prêmio Nobel Leon Lederman. “A coisa não funciona bem assim. A competição existe em todos os níveis: o internacional, o nacional, o institucional e, finalmente, com o cara do outro lado da sala.”

Duvida? Então examine os episódios em que a ciência foi usada como arma de guerra e instrumento de propaganda. Na corrida para desenvolver a bomba atômica, na Segunda Guerra, os Estados Unidos gastaram 22 bilhões de dólares e empregaram quase 130 mil cientistas no projeto Manhattan. Mas o chefe do projeto, Robert Oppenheimer (dir.), foi falsamente denunciado como espião comunista pelo ex-companheiro Edward Teller (esq.), e só continuou no mundo científico graças à intervenção de Albert Einstein (centro). No calor da Guerra Fria entre EUA e União Soviética, o biólogo predileto de Josef Stalin abdicou da lógica para espinafrar a ciência do Ocidente. “Tudo isso de DNA, DNA…”, disse Trofim Lysenko. “Todo mundo fala, mas ninguém nunca viu!”

Disputas como essas e as das próximas páginas não raro são o motor do progresso e da tecnologia. E o conflito é parte constante do diálogo entre pesquisadores. “Na ciência, você não precisa ser gentil. Precisa apenas estar certo”, afirmou o ex-primeiro-ministro inglês Winston Churchill. Os cientistas podem se tornar tão passionais “quanto um fanático político ou poeta”, diz White. Quando isso acontece, é melhor correr do laboratório.

Gênio de mau gênio

Um soco no estômago. Foi o que despertou a obsessão por conhecimento do garoto inglês que viria a se tornar um dos maiores gênios científicos da história. O rapaz de 13 anos prometeu ao valentão que o agrediu: “Não descansarei até ser o melhor aluno da escola”. Após tirar sangue do nariz do colega, ainda quis humilhá-lo naquilo em que sabia ser superior: o intelecto. Em um ano, Isaac Newton (dir.) cumpriu a promessa. Em dez, revolucionaria a ciência. Só que a fama não sossegou seu espírito de rivalidade. Mesmo quando aparentava ser modesto, como na frase “Se enxerguei mais longe, é por estar de pé sobre os ombros de gigantes”, destilava ironia. Seu alvo de escárnio era o cientista Robert Hooke, um anão.

O descobridor da gravidade usava seu poder para esmagar inimigos. O principal, o alemão Gottfried Leibniz, elaborou um método alternativo para o cálculo, uma das mais relevantes invenções do rival. “Eles publicaram suas obras sobre cálculo na década de 1670. Mas Newton concluiu: ‘Ah, sou o primeiro mesmo! Pensei antes’”, diz o físico e historiador Steven Goldman, da Lehig University (EUA). A ferramenta, essencial na engenharia, permite calcular volumes com exatidão e, por exemplo, projetar estruturas 3D a partir de formas planas. Newton ficou tão transtornado que instaurou um tribunal na Royal Society de Londres e realizou um julgamento fajuto para definir o alemão como plagiador. Não contente, passou o resto da vida manchando a reputação do colega. E sabe qual a notação de cálculo que os engenheiros usam hoje? A de Leibniz.

Macaco é a sua avó!

“É por parte de avô ou avó que você descende do macaco?”, disse o bispo Samuel Wilberforce (centro) após um inflamado discurso contra a teoria da evolução no museu da Universidade de Oxford, onde mais de mil pessoas assistiam ao debate. Mas quem respondeu à pergunta naquele 30 de junho de 1860 não foi o pai da teoria. “Eu gostaria tanto de estar morto quanto de responder ao bispo numa assembleia”, afirmou o reservado Charles Darwin (dir.), que nunca falou publicamente sobre sua descoberta. Mas até um gentleman como ele, que concedeu a coautoria de sua tese a Alfred Wallace ao saber que o colega havia pensado numa versão alternativa da teoria, tinha seus desafetos. Darwin não engolia o naturalista e professor do Real Colégio de Cirurgiões Richard Owen (esq.) . Também pudera: Wilberforce era só um títere nas mãos de Owen, rival persistente que usou sua influência para impedir que Darwin recebesse o título de “sir”. A defesa do evolucionismo no debate de Oxford coube ao chamado “buldogue de Darwin”, tão fiel que era ao amigo. “O que eu preferiria como avô? Um homem altamente dotado pela natureza, mas que utiliza suas faculdades com o mero propósito de introduzir o ridículo numa discussão científica, ou um miserável macaco? Sem hesitar, escolho o macaco”, disse Thomas Huxley ao bispo.

O tom duro de discussões como essa teve efeito positivo ao despertar o interesse público sobre a ciência. A teoria da evolução, apesar de sofrer preconceito por contrariar preceitos religiosos, é um exemplo típico de como a disputa pode favorecer o conhecimento. Huxley usava a polêmica para difundir a tese em conferências para trabalhadores. “Eles me seguem maravilhosamente. Na próxima sexta-feira todos estarão convencidos de que são macacos”, escreveu. O bispo conhecido como “Sam Ensaboado” atacou Darwin até o fim da vida. Só que acabou caindo do cavalo – literalmente. Enquanto exibia suas habilidades para o presidente da Câmara dos Lordes, levou um tombo, rachou o crânio numa pedra e morreu. Huxley não perdoou. “Por uma única vez, a realidade e seu cérebro entraram em contato. E o resultado foi fatal”, afirmou em carta a John Tyndall, em 1873.

Perdendo a cabeça

Casa de Antoine Lavoisier (dir.), Paris, 1775. O cientista inglês Joseph Priestley conta, empolgado, as descobertas que havia feito sobre o “ar deflogistado”. Do outro lado da mesa de jantar, o homem que concebeu a química como hoje a entendemos presta muita atenção no francês sofrível do convidado. Ele sabia o valor dos dados experimentais escondidos sob os conceitos estranhos de Priestley. Na manhã seguinte, Lavoisier vai direto para seu sofisticado laboratório na mansão cedida pelo rei Luís XVI.

Ele repetiu os processos descritos pelo inglês e chegou ao mesmo resultado: obteve um gás capaz de alimentar a chama de velas e manter roedores vivos. Aposentou o conceito de flogisto (uma espécie de fluido existente em todos os objetos que seria responsável pelo fogo) defendido por Priestley e chamou sua descoberta de… oxigênio. E, assim, incendiou os ânimos britânicos. “Lavoisier nunca descobriu o oxigênio até que Priestley o descobrisse para ele!”, afirmou lorde Brougham, entre outros críticos. “O filósofo da ciência Thomas Kuhn dizia que, na verdade, Lavoisier não ‘descobriu’ o oxigênio, pois faltou um aspecto importante do achado científico no experimento: a revelação de que o oxigênio estava oculto no mundo, à espera de ser encontrado”, diz Steven Goldman. Nem os lunáticos botavam fé nas ideias de Priestley. “Antes de meus últimos experimentos, o flogisto quase foi posto de lado pela Lunar Society”, escreveu ele mesmo referindo-se ao clube de intelectuais que deu origem ao adjetivo. Embora não desse crédito aos colegas, foram as ideias de Lavoisier que entraram para os anais da ciência. Mas ele teve destino de nobre: morreu decapitado na Revolução Francesa.

Ringue eletrizante

“Tesla, você não entende nosso humor americano”, disse Thomas Edison (esq.) a seu empregado, em tom de deboche. Ele havia acabado de descumprir a promessa que fizera um ano antes, em 1884: pagar 50 mil dólares para o engenheiro croata Nikola Tesla resolver o problema da sincronização em motores. Tesla não só cumpriu sua parte do acordo como já havia engordado a coleção de patentes de Edison com outros 24 projetos. O inventor americano orgulhava-se de alcançar glória e fortuna com o trabalho alheio. “Todo mundo rouba no comércio e na indústria. Eu mesmo já roubei muita coisa. Mas eu sei como roubar”, afirmou certa vez, segundo o biógrafo Matthew Josephson. Assim é fácil entender como o cientista soma 1093 patentes de invenções nos Estados Unidos e mais 1239 em 34 países – para dar uma ideia, a empresa recordista nos EUA (a IBM) somava 4186 patentes no início do ano passado.

O calote foi a gota d’água para Tesla, que pediu demissão para trabalhar numa ideia capaz de detonar o monopólio de Edison: a corrente alternada. Mas então se viu forçado a virar pedreiro para sobreviver. Depois de um ano em canteiros de obras, teve a sorte de contar seus planos de iluminar o mundo a um capataz bem relacionado, que lhe apresentou ao executivo A.K. Brown. Soava o gongo para a disputa conhecida como “batalha das correntes”.

De um lado do ringue, Thomas “maníaco contínuo” Edison: lutador agressivo, peso pesado, cabelos despenteados, roupas amassadas e manchadas de comida, arrogante, sem paciência para tolos, prático e anti-intelectual. “Se eu frequentasse escola, você acha que chegaria a algum lugar?”, dizia. Do outro, Nikola “gênio alternativo” Tesla: lutador tático, peso pena, cabelo partido ao meio, tímido, poliglota e amante dos livros. “Quem usa teoria e cálculo economiza 90% de trabalho.” Nessa luta, Edison jogou baixo para emplacar a corrente contínua: eletrocutou publicamente vacas, cachorros e cabras, manipulou a imprensa e estimulou o uso da cadeira elétrica. De nada adiantou. Tesla foi “empresariado” pelo magnata George Westinghouse e nocauteou Edison. Só que se deu mal ao pendurar as luvas: foi roubado pelo empresário. Morreu aos 87 anos em um quarto de hotel, ignorado no meio científico e na miséria.

Dona do DNA

“Nem batom ela usa. E se veste com a imaginação de uma nerdzinha adolescente”, disse o geneticista James Watson sobre a colega Rosalind Franklin. Ele é daqueles que não perdem a piada: “Dizem que seria terrível se usássemos a genética para deixar as mulheres bonitas. Eu acho que seria bom”. O inglês desvendou a molécula de DNA em parceria com Francis Crick. Mas sempre tratou com desdém a cientista que encontrou a peça-chave para decifrar o código da vida. Escreveu que Rosalind era irracional, dissimulada e “nada sexy”. Não é de estranhar que ela tivesse um pé atrás com a dupla. Naquela época, mulheres eram desvalorizadas na ciência; faziam trabalho de computador – “computadoras” era até o termo usado para designar a função de certas astrônomas. Rosalind e suas colegas almoçavam longe dos homens no King’s College de Londres, em uma salinha apertada. E eram pressionadas constantemente para fornecer dados a outros pesquisadores.

O momento “eureca” dos pais do DNA só veio em janeiro de 1953, quando o parceiro de Rosalind, Maurice Wilkins, cometeu uma indiscrição: mostrou a Watson imagens de moléculas obtidas por ela. “Não meti a mão na gaveta e roubei. Elas foram mostradas a mim”, disse ele, que reconheceu a importância do evento para a descoberta que lhe rendeu o Nobel de 1962. “Mas a verdade é que teríamos conseguido no outono. Havia dados suficientes.” Há dúvidas de que a ideia da dupla hélice tivesse decolado sem as imagens. “Se você fosse um apostador na década de 50, suas fichas iriam para Linus Pauling”, diz Bill Bryson, autor de Breve História de Quase Tudo. Pauling iria para a Inglaterra e estaria com Wilkins, mas teve o passaporte retido nos EUA em função do macartismo. Rosalind morreu de câncer aos 37 anos. Maurice Wilkins também recebeu o Nobel.

Quem quer dinheiro?

Washington, 1995. Um homem se descabela com as oscilações da bolsa de valores: está mais pobre. Mas já em 1999 ele ganharia 6 milhões de dólares por hora. Quem conhece o tino comercial de Bill Gates (esq.), dono da Microsoft, não se admira com seu gigantesco patrimônio. “Quando faz negócios com ele, você se sente estuprado”, disse Philippe Kahn, fundador da Fullpower Technologies. Gates conseguiu comprar o sistema operacional Q-DOS por 25 mil dólares, tirar o Q do nome e vendê-lo como DOS à IBM por 200 mil. Sua genialidade ao fechar contratos – como garantir que todo computador da marca teria de vir de fábrica com o sistema Windows – rendeu muito dinheiro e ele se tornou um dos homens mais odiados da informática.

“O mais desprezível é a mentira de Bill, esse negócio de inovação. Isso me dá vontade de vomitar”, disse Larry Ellison. Mas o ex-hippie de São Francisco também “vampirizou” a IBM para erguer a Oracle, empresa que o transformou na pessoa mais rica do planeta em 2000. Segundo Michael White, “hoje, e talvez por algum tempo”, parte da competição científica migrou “da política para o comércio” e o melhor exemplo é a disputa entre Ellison e Gates. O dono da Oracle destila veneno: “Bill é o cara mais obsessivo, bitolado e ambicioso que já conheci”. A resposta de Gates? O topo da lista Forbes de bilionários em 2009, com 40 bilhões de dólares. E Ellison? Quarto lugar: 22,5 bilhões.

Fonte: Guia do Estudante

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